sexta-feira, 27 de março de 2009

Opinião: Morte do ensaio, por Pedro Bernardo

MORTE DO ENSAIO,
por Pedro Bernardo (*)

No suplemento «Actual» da edição do Expresso que faz o balanço literário de 2008 (27/12/08), António Guerreiro volta a referir o panorama desolador, segundo ele, da publicação do ensaio de ciências sociais e humanas. Há uns meses, no seu blogue, Francisco José Viegas perguntava a Eduardo Pitta se este, no balanço que fizera, não encontrara em 2008 livros de ciência e/ou ensaios dignos de nota. Tudo isto para referir aquilo que alguns vêem como a lenta morte do ensaio no panorama editorial português.

É certo que o primado do mercado e, por extensão, da ficção e de outro tipo de obras mais vendáveis veio colocar (ainda) mais dificuldades às editoras que publicam este género. É certo, também, que a imprensa escrita dedica cada vez menos espaço à crítica literária do género, preferindo fazer a recensão do último e mais obscuro romance inglês, a falar num ensaio. É certo, ainda, que a concorrência draconiana no retalho – seja nas grandes cadeias ou em pequenas livrarias – obriga à exposição de títulos de maior rotação e mais potencial de venda.

Mas conviria tentar perceber as razões mais fundas do declínio de um género que, não estando tão moribundo como se apregoa, já conheceu realmente melhores dias.

A infantilização do ensino não ajudou. A leitura como momento lúdico pode ter as suas vantagens e servir para entreter, mas ler também é um acto que exige determinação, vontade, por vezes esforço. A democratização do ensino superior, por seu lado, não foi acompanhada do grau de exigência necessário (por muitas razões que não vêm agora ao caso) e os conhecimentos de um recém-licenciado em termos de cultural geral, de «mundo literário» – à falta de melhor tradução para well read – e de capacidade de interpretação e análise de um texto deixam muito a desejar (haverá excepções, como é óbvio, e felizmente). Assim, embora haja mais títulos publicados e mais leitores, estes, por várias razões, estão menos receptivos ao ensaio ou à poesia.

Por tudo isto – pela pouca exigência do ensino, pela simplificação dos programas, pelos baixos índices de leitura em bibliotecas, pela pouca visibilidade das obras de ensaio, pelo preço deste tipo de livro (com que o editor se tenta acautelar de um previsível fracasso), pelos hábitos de leitura que vão mudando – o panorama não é animador. Mas também não é apocalíptico: continua a haver projectos editoriais que vão contrariando a tendência, razão por que o desabafo de António Guerreiro me parece excessivo. Mas é um sinal de alerta. E, mais importante, cumpre também ao público rebelar-se e dar um sinal de exigência; o rigor e a qualidade na edição também se fazem de leitores exigentes.

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Por dever de ofício, acompanhei o debate suscitado pelo texto de Hugo Xavier, debate esse que me merece alguns comentários. A tradução em Portugal é mal paga, como a generalidade das outras profissões o é (o vencimento médio no país ronda os 800 euros), e não por um qualquer motivo mefistofélico do editor para explorar o tradutor e aumentar escandalosamente as margens do negócio (a crer em alguns discursos, a edição seria um «El Dorado»…, ou a exploração de um proletariado, os tradutores descamisados, por um bando de nababos capitalistas, os editores). A verdade é que a economia do sector não permite pagar muito mais sem fazer perigar a actividade. É lícito e salutar que um tradutor queira ser bem remunerado; mas essa é a aspiração de qualquer trabalhador. Também os revisores, os assistentes editoriais, os designers gráficos, os paginadores e os editores se julgam mal pagos; mas os seus vencimentos espelham a realidade económica da actividade e do país. Do desejável ao possível vai por vezes uma grande diferença.

(*) Pedro Bernardo, licenciado pela Faculdade de Letras de Lisboa, é director editorial de
Edições 70, tendo ainda a seu cargo a produção da mesma editora, onde desempenha funções desde 2000. No seu percurso profissional foi, também, tradutor e revisor.
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