Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Editorial: Fnac e os 10%

Editorial

À FNAC se deve muita da democratização do livro. Abriu portas no nosso país há dez anos, tendo-se instalado no leitor a ideia de que, confortavelmente sentado num sofá, podia folhear-se sem comprar, consultar sem ser visto de soslaio pelo livreiro, que se certificava se não levávamos indevidamente um livro debaixo do braço.

Equipada com bons profissionais, livreiros a sério, entrava-se na FNAC e percebia-se que quem estava do outro lado do balcão sabia do que falava. Uma forte actividade cultural convidava a dar lá um salto para ver o que ocorria. Tudo acompanhado de um café ou de uma bebida. Paralelamente, e com a implementação da Lei do Preço Fixo, o preço FNAC (redução de 10% sobre o preço de editor) foi também uma das características que fez com que a compra de livros passasse a ser efectuada naquelas lojas. Desvalorizaram-se as livrarias, ditas independentes, algumas impregnadas de vícios que ainda tardam a desaparecer, e passou-se a comprar bastante na FNAC.

Com o evoluir dos tempos, a actividade cultural passou a fazer parte do dia-a-dia das livrarias independentes (veja-se, a título de exemplo, a Pó dos Livros, em Lisboa, a Loja 107, nas Caldas da Raínha, ou a livrododia, em Torres Vedras), as cafetarias instalaram-se em muitos destes espaços, e os que quiseram sobreviver e continuar a ser respeitados, lutaram por encontrar o seu espaço. Veja-se a Ferin, fortíssima nos álbuns e no livro importado, com um serviço ao cliente absolutamente irrepreensível.

Faltava o preço para competir com a FNAC. Os livreiros tradicionais, sujeitos a descontos inferiores por parte das editoras, por não representarem o mesmo do que a FNAC em termos de negócio, viam-se impossibilitados de praticar o desconto do armazenista francês. Observa-se agora que a FNAC parece preparar-se para abandonar esta política de preços. Assim, apenas os portadores dos cartões poderão usufruir dos 10% de desconto que, presume-se, continuarão a ser suportados pelos editores. Os outros clientes pagarão o mesmo preço praticado numa livraria independente.

Por tudo isto, fica uma pergunta: se não se possuir um cartão FNAC, qual o motivo para se continuar a ir lá comprar livros?

(pf)

17 comentários:

Pedro Patacho disse...

Estimado Paulo,
Creio que fica por perguntar muito mais do que isso, como tu bem sabes. Por exemplo: Onde estão agora os livreiros a sério? Onde estão os coordenadores a sério para cada área do conhecimento disponibilizada nestas enormes livrarias? Aqueles que possam 'separar' o trigo do joio. As forças do mercado seguem empurrando as grandes cadeias para modelos de gestão cujos resultados começam a aparecer. Não são só os livreiros a sério que se tornaram cada vez mais raros. Muitos outros aspectos,a meu ver fundamentais no sector livreiro, se estão a tornar raros. Parece-me a mim, mas admito que posso estar redondamente enganado, que a actividade livreira, tal como a editorial, deve trazer associada uma importante responsabilidade social e cultural. Também me parece, mas posso estar enganado, que esta tentativa de recuo na política dos 10% é não apenas sintomático dos problemas que o sector enfrenta actualmente, como também revelador da origem dos mesmos problemas. Um último comentário: Julgo que estas coisas não andarão muito desligadas das razões pelas quais enfrentamos uma crise financeira mundial sem precedentes. É a besta no seu melhor, um capitalismo predatório que deliberadamente esquece as suas responsabilidades e 'se embriaga sem cessar' nos seus próprios excessos. Talvez seja chegada a hora de parar para pensar. Só para pensar!

PP

Anónimo disse...

"qual o motivo para dr continuar a ir lá comprar livros?"

Não sei... será porque há lá livros, em quantidade e qualidade, e porque o espaço é agradável, tem até um bar, espectáculos de vez em quando, e porque um gajo até se pode sentar no chão a ler sem que nos venham chatear, etc, e porque não há muitas livrarias assim? Pergunta dificil, a sua.

Pedro

Anónimo disse...

«Tem quantidade e qualidade»? A FNAC!!?? Deve estar a sonhar. Encontra lá os livros de grande rotação (em quantidade, sim, porque encomendam logo largas dezenas de exemplares de cada um desses títulos) e «já é um pau».

Anónimo disse...

Ou porque a própria clientela é 'simpática'?

Anónimo disse...

Meu caro anónimo das 19.30, você encontra na FNAC quase toda a produção editorial portuguesa, mais uma grande escolha de clássicos em lingua estrangeira das grandes editoras, desde a Penguin a Hachette, etc, etc. Ou Herberto Helder, Shakespeare. Thomas Morus, etc, etc, etc, são de "grande rotação" e pouco sofoisticados para si? Esta mania dos portugueses para "esnobar" a FNAC é tipica. Gamab-se muito de ir à Bucholz e tal e é claro que depois acabam por ir todos à FNAC, essa horrivel grande superfície... ;)


Pedro

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 10h35,

Não saberá seguramente do que fala. É mais do que consabida a pobreza da oferta editorial da FNAC. E o espaço das estantes para livros estão constantemente a reduzir-se. Tente encontrar os Sinais de Fogo do Jorge de Sena, a Mensagem do Fernando Pessoa ou qualquer título do José Régio na FNAC e depois venha falar comigo. Não são autores muito sofisticados para si, pois não?

Nunca fui a Bucholz e não compro um livro na FNAC há mais de ano e meio.

Bruno Silva

Possidónio Cachapa disse...

Eu, como muitos outros leitores furiosos (no sentido do interesse e voracidade de leitura), saudámos de braços abertos a entrada da FNAC em Portugal. Os descontos tornaram a coisa mais simpática, mas foi sobretudo a política de acolhimento sem suspeição que mais me cativou. Deixar de ter a empregada a fingir que arrumava livros a vigiar, pode parecer ridículo, na distância, mas não foi coisa de somenos.
Como autor fui sempre bem acolhido nas diversas lojas e os meus livros bem expostos (numa primeira fase por iniciativa da loja, noutras, deduzo, por acordos suportados pelo editor, como é prática geral.
Contudo é preciso distinguir as lojas. A do Colombo é diferente da do Chiado, por sua vez distinta da do Fórum Almada. Isso muda tudo.
A do Chiado, que era de referência, degradou-se, nos últimos anos a ponto de se tornar desinteressante. O desnorte na exposição dos livros (para lá dos espaços comprados, quero dizer), a total ignorância com que se misturam alhos com bugalhos, gente que se lembrou de escrever um opúsculo com um livro forte de um grande autor (poderia citar vários) confunde o visitante-leitor. A ausência de critérios, à mistura com a ignorância de muitos vendedores (não todos, claro) mudou este paradigma de ir à FNAC e encontrar. Sim, o Herberto está lá, o Cardoso Pires também. Mas onde? Com que destaque? E se formos para um nome que esteja menos na voga, mais vale levar um perdigueiro. Ou esperar que alguém vá ver ao computador para ver se "Que farei quando tudo arde", não estará na secção de utilidades, letra I, "Incêndios".
Não é tanto pelos 10%, mas quando uma livraria perde aquilo que nos entusiasmou nela (e que lhe agradecemos, pelas mudanças de atitude que provocou) é capaz de ser tempo de procurar novas paragens...

Anónimo disse...

Caros amigos~,

Eu cada vez que leio estes comentários fico abismado com a ignorancia desta gente!
Coloco estas perguntas?
* Quias são as livrarias do mercado Português onde encontram um fundo de importação tão vasto como a Fnac?
* Lembro-me de muitos comentários aquando da abertura da 1ª loja no Colombo "Uma lufada de ar fresco no mundo livreiro português" quantas editoras existiam e quantas existem agora?
* Quantos originais de novos autores eram recusados em média na altura e quantos são agora?
* Quem teve força para combater lealmente com os Hipermercados?
* Quem paga a horas aos editores mesmo dando descontos altos?
Será a Bulhosa do Grupo Civilização quem goza com os editores pagando tarde quando paga e sua editora obriga os Livreiros a cumprirem?
* Façamos uma pergunta? O que terá levado a FNAC a abdicar dos 10% em Portugal e não dos 5% em Espanha cheira-me a ares de Alfragide.
* ninguém fala das continuas feiras do Livro em Lisboa (Só agora existem 3 em Lisboa a decorrer com um nome pomposo de livro manuseado) não será estas situações que dão cabo do sector?

Tenham juizo!

Tenho dito.

B. Pinheiro

Anónimo disse...

Vou habitualmente à FNAC de Gaia. Tenho cartão. Verifico que em matéria de livros está cada vez mais pobre. No entanto, em matéria de computação está excelente. Creio que verificaram que a maioria dos seus clientes são clientes de cartão. Se assim é, o que lhes interessa descontar a uma minoria?

Anónimo disse...

A FNAC do Chiado (a única que frequento pelo menos uma vez por semana) está a degradar-se de dia para dia. O pessoal atencioso e conhecedor dos primeiros anos desapareceu (embora ainda restem alguns funcionários competentes). Mas a maioria, quer nos livros quer nos filmes, quer nos discos, ignora mesmo o trivial.

Alguns comentadores deste post dizem que encontram lá tudo o que é importante. Devem andar distraídos. Da literatura portuguesa, pouco mais há do que nos supermercados (que é aquilo em que a FNAC se tornou); da estrangeira, praticamente zero, nem as grandes novidades em francês e inglês, para não falar na ausência quase total de livros em espanhol ou italiano, que o alemão é língua pouco lida em Portugal.

O critério de exposição é inacreditável e amontoa-se o lixo em que se converteu a maior parte da produção editorial portuguesa. A mediocridade da maior parte dos livros dos novos pseudo-escritores é confrangedora. Editam-se (e expõem-se ao público) obras cujo nível literário é inferior ao da literatura pornográfica!

E já não falo da miséria dos filmes e dos discos para não me alongar. O único mérito que ainda lhe reconheço é na encomenda de livros estrangeiros (e só aqueles que me custam menos que se encomendados na Amazon).

Quem dirige actualmente a FNAC Chiado e é responsável pelo abastecimento da loja pode ter muitas qualificações em outras áreas mas culturalmente é de uma lamentável ignorância.

Alexnadra disse...

Que motivo para continuar a comprar livros na FNAC?

Passo a referir a minha experiência.

Na minha penúltima ida à FNAC do Colombo, há 2 anos atrás, encontrei logo obras de grandes autores em destaque. E encotnrei ainda os livors técnicos que pretendia com enorme facilidade.

Na minha última ida à FNAC, este ano, não encontrei esses mesmos grandes autores, não encotnrei esses mesmos livros técnicos e reparei que a secção de poesia para além de ser minúscula centra-se em apenas alguns autores. Reparei ainda que a secção de Romance Histórico tinha um tamanho absurdamente grande, especialmente tendo em conta o tamanho da secção literatura (que me pareceu demasiado modesto). Para além disso não encontrei livros de bolso da BI, nem da Bis, nem da Booket.

Queria um livro de poesia, mas nem na FNAC do Colombo, nem na FNAC do Chiado, nem numa Bertrand encontrei o que pretendia. Em todas essas livrarias vi falta de variedade nos autores de poesia e poucos livros no geral. A FNAC, face à Bertrand que visitei tinha a vantagem de ter melhor organização. Já na Almedina encontrei diversos livros que não esperava encontrar, incluindo livros de bolso de algumas das colecções acima referidas.

Resumindo, haverá ainda motivos para visitar a FNAC e em alguns casos comprar. Para omprar um livro que não se encontrou noutra livraria. E para comprar livros estrangeiros.

Todavia, há livros que irão passar a poder ser comprados em qualquer livraria. Nomeadamente, na Bertrand. O que, penso, irá levar os leitores a procurar a livraria mais próxima (do trabalho, de casa, etc.), por uma questão de tempo.


Ao B. Pinheiro,

Porque é que será que ninguém fala das feiras do Livro em Lisboa?

Dão cabo do sector? Parece-me que não.

Têm utilidade? Parece-me que sim.

Porque e que têm utilidade? São uma forma de aquirir livros a um preço mais acessível. O que para muita gente é uma boa oportunidade para adquirir livros. Desde o jovem que tem de gerir o seu orçamento face às despesas escolares, até ao idoso que tem despesas com saúde que lhe consomem grande parte do rendimento.

Alexandra disse...

p.s. Em época de crise em que o desemprego está elevado e poderá piorar, com os orçamentos de muitos consumidores a reduzirem-se por via da inflacção e dos juros, etc. Um «aumento» do preço de livros no consumidor (por via da extinção do desconto) não me parece ser a melhor opção a tomar.

O desconto não era muito elevado, mas para quem compra livros regularmente daria certamente uma ajuda no orçamento. Ou pelo menos, permitia ficar com mais recursos económicos, que por sua vez poderiam copntribuir para a compra de mais livros.

Anónimo disse...

Eu sou um frequentador algo assíduo (pelo menos 1 x por mês) da Fnac desde o seu surgimento em Portugal. Inicialmente no Chiado, depois, por motivos de emprego, no CC Cascais e, por vezes, no Colombo.

O que tenho vindo a verificar, sobretudo nos últimos 3 anos, é uma diminuição abrupta no espaço dedicado aos livros, em diversas secções e, sobretudo, na oferta, pois há imenso autores que não se conseguem encontrar e comprá-los na Fnac só com uma encomenda à editora (pelo menos é o que dizem os colaboradores, pois nunca encomendei).

Não é necessário procurar Jorge de Sena ou José Régio, livros de autores como Cormac ou, imagine-se, Eça de Queirós, já me foram negados e mesmo depois de terem espreitado no sistema informático a resposta é sempre a mesma: "não há em stock, só encomendando à editora". Isso não acontecia há uns anos.

Não tenho cartão, nunca tive e nem vou ter.

Sem os 10% começarei a frequentar os hipermercados e a Leya das Amoreiras para as edições mais recentes, para outras edições, sempre há as Feiras e as pequenas ou grandes livrarias tradicionais, das quais a Bertrand.

Anónimo disse...

A fnac só tem duas coisas de bom: Podemos estar calmamente a ver os livros e a lê-los e caso não haja (o que é o pão nosso de cada dia para quem não procura os livros da moda) pode encomendá-los.
Sempre que vou à Fnac os livros que procuro ou não existem ou estão perdidos de tal forma que o empregado não o encontra. Mas sempre que quis encomendaram-me o livro e uma semana depois já o tinha, em óptimo estado e sem encargos maiores.

Nicolas Grassi disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
Nicolas Grassi disse...

Mas porquê tanto alarido sobre esta medida? Têm duas opções. Ou pedem o cartão ou escolham outra marca. A Fnac não é serviço público nem os clientes têm direitos pré-estabelecidos. Têm, isso sim, benefícios, que é um coisa bem diferente.

De resto, há muitas razões para ir à Fnac. A começar pela diversidade de géneros (cd, livros, dvd,..). A continuar pelas edições especiais a preço Fnac (alta rotação de títulos). A continuar pelo café. A continuar pelos leitores de mp3. A continuar pelo espaço infantil. e por aí fora. A fnac não se resume aos 10%. nem consigo perceber esta polémica.

A fnac é um espaço de entretenimento e cultura. Não é uma (apenas) livraria.

Cumprimentos a todos.

cassandra disse...

sim, a fnac tem muitas coisas muito más, como a deterioração de uma oferta que em tempos contou com a colecção da loeb classics (em grego e em latim) e a colecção de poesia da hiperión e um fundo de catálogo da folio da gallimard tão diverso como o encontrado numa qualquer livraria em frança. infelizmente, o que é hoje colocado no mercado livreiro é completamente diferente, ligeiro e risível, mas se o é e se vende, é porque há quem o leia. e, céus, como os portugueses adoram ler porcaria!
também para meu desagrado, a gestão que hoje é feita centralmente e sujeita a orçamentos mensais extremamente restritivos e mesmo cruéis, veio, a meu ver, contribuir grandemente para aquilo que prevejo ser o princípio do fim para a fnac.
e trabalho nesta empresa há 10 anos, comecei como uma livreira, ávida da interacção, da discussão, do prazer que deriva da leitura e da análise introspeciva que a mesma provoca, mas sei que nos últimos anos a empresa degenerou e obrigou muitos dos seus funcionários a seguir o mesmo caminho. garanto-vos que não é fácil lidar com o preconceito criado também por pessoas como os senhores, que julgam que ninguém é livreiro a sério numa fnac. nem é fácil lidar com muitos dos actuais clientes, que nem sequer sabem andar numa livraria, que se sentam em cima de livros, que cospem nos livros, que colam pastilha elástica nos livros. se antigamente, os nossos clientes eram sobretudo pessoas habituadas a ler e apreciavam partilhar as suas leituras, hoje em dia, ninguém pára para sequer pensar no que está exposto: querem o que a oprah falou ou o que leram numa revista ou o que a amiga gostou tanto de ler. e estes não são os leitores que eu ambicionava atender, mas também não são os leitores que os senhores idealizam, certamente.
o que a fnac ainda tem de bom é a oferta, porque quer gostem do facto ou não, se procuro uma edição disponível no mercado nacional, tenho 95% de hipóteses de encontrá-la na fnac. e se procuro uma obra como sinais de fogo de jorge de sena, que toda a gente no mundo livreiro devia saber que se encontra esgotada há uns anos, vou a um alfarrabista, outra coisa que muitos portugueses parecem não saber sequer o que é.
o pior da fnac é o facto de ainda não ter conseguido melhorar os tempos de recepção da importação, a não ser que se trate de porcarias que vão vender, como a meyer e o harry potter.