segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Byblos

Deixamos aqui o artigo de Rita Freire, publicado na edição de 4 a 20 de novembro do JL, sobre a Byblos.

Byblos, a maior livraria do país

A maior livraria de Portugal vai abrir as suas portas a 6 de Dezembro, em Lisboa, na zona das Amoreiras. Com 3300 m2 só de área comercial (mais 700 de serviços administrativos) e um catálogo de 150 mil títulos disponíveis, a Byblos representa um sonho antigo de Américo Areal, até há pouco dono e editor da ASA. Uma livraria de fundo editorial, que quer ser a «primeira livraria inteligente» no nosso país e ter disponível a totalidade do catálogo das chancelas nacionais. O JL revela o que vai ser este novo (e único) espaço

Falta apenas um mês para a inauguração.
No entanto, uma grande zona em obras pouco deixa adivinhar o que aí vem. O espaço, com uma área bruta de 4000 m2, divide-se por dois andares. Ainda cheira a tinta, madeira, cimento. Um olhar mais atento permite vislumbrar estantes vazias, por entre o pó, os coriscos decorrentes da soldadura, o estuque e as várias dezenas de trabalhadores que por ali circulam. E são estas estantes o único indicador do que vai nascer nesta imensidão. Será (de longe) a maior livraria do país. Um sonho antigo, com mais de uma década, que Américo Areal nunca abandonou. Criar, de raiz, uma livraria, onde o leitor pudesse encontrar qualquer título, que reunisse os fundos de catálogo das editoras portuguesas. E onde, acima de tudo, se sentisse bem confortável. Aliás, conforto é a palavra de ordem na Byblos, que inaugura a 6 de Dezembro, se tudo correr como planeado. Mesmo a tempo do Natal, ponto alto da venda de livros em Portugal.

Contudo é impossível não questionar. Num país onde os índices de leitura são baixos, e no qual um estudo recente revela que mais de metade da população não comprou nenhum livro no ano anterior, como fazer vingar uma estrutura desta dimensão? Como assumir um risco de elevado valor monetário? Américo Areal sorri. É um sonho, afinal. E acredita que o mercado do livro é lucrativo, apesar das queixas constantes de muitos que trabalham no sector ou não fosse ele o anterior dono da ASA, uma das maiores editoras do nosso país. É, pois, por experiência própria, que sabe que o mercado do livro pode, efectivamente, ser rentável. Desde que bem analisado, com uma ideia cimentada na experiência e no conhecimento do ramo.

Acima de tudo nota-se o seu orgulho enquanto nos mostra o espaço. Ou as projecções em 3D, de como este ficará. Assim o permite a tecnologia nos dias que correm. «Diga lá, está bonito ou não está? Diga que sim!», exalta-se quando deixamos passar um pormenor de que gosta especialmente, como um candeeiro. Ou um sofá, acabado de chegar, onde nos pede para sentar. «Preciso que alguém me diga se é ou não confortável. Então?», questiona na expectativa. É confortável, sim. Mas, se não o fosse, nunca o admitiríamos. Seria, n mínimo, cruel arrasar todo o entusiasmo patente na voz e no semblante.

Um espaço high-tec
Orgulho, pois. E não é para menos. Para além da magnitude do espaço, do detalhe cuidado da arquitectura (projecto do gabinete alemão, Kreftbrübach, especializado em conceber espaços para livrarias), e dos muitos títulos que aí estarão disponíveis, esta será uma livraria high-tec. Dada a enormidade do lugar, e a variedade de obras oferecidas, foi criado um sistema, «único no mundo», que permitirá ao utente encontrar rapidamente o livro que deseja. Se, por um lado, cada livro terá o seu lugar específico em estantes devidamente numeradas, por outro, através de um chip colocado em cada exemplar, será possível encontrá-lo por GPS, caso esteja fora do sítio. Para tal, basta aceder a um dos vários plasmas sensíveis ao toque, que estarão dispostos pela livraria. Ao digitar o nome da obra o computador indica onde esta se encontra. E, para aqueles a quem a tecnologia ainda não conquistou, serão muitos os empregados disponíveis para ajudar. Todos terão um equipamento que, sincronizado com o chip dos livros, lhes indica quais estão fora de sítio, para que os possam repor na devida estante. Mas a tecnologia não se fica por aqui. Uma vez que é difícil, se não impossível, expor 150 mil títulos, existe um armazém para guardar os livros com menos rotatividade. Mas o leitor pode aceder-lhes facilmente, através de uma estante em vidro. Basta escrever num ecrã o título da obra desejada, que um sistema robotizado a trará ao próprio. Através da estante. Tecnologia, então. Sim. Mas escondida. Apenas presente para ajudar e tornar a experiência da livraria o mais cómoda possível.

Porque o objectivo é tornar a ida à Byblos «uma experiência.» Ou seja, não se deseja que o público vá à loja apenas para comprar um, dois, três ou 50 livros, mas também para usufruir do local e do que este pode proporcionar. Para tal, criaram-se várias zonas dentro da livraria, dirigidas a públicos diferentes. Por um lado, cada estilo literário terá o seu espaço distinto. Por outro, há uma zona dedicada aos mais novos, com um barco gigante, onde as crianças podem ficar a ler e no qual decorrerão, pontualmente, sessões de leitura. E, à semelhança de outras livrarias, poder-se-á contar com uma cafetaria, que servirá desde bebidas a refeições ligeiras. E zonas com vários sofás onde cada um se poderá sentar a ler.

Mas, e apesar de se dedicar especialmente aos livros, há também outros produtos na Byblos. Assim, estarão também disponíveis para o consumidor CDS e DVDS, bem como artigos de papelaria de alguma forma relacionados com os livros e a cultura, e uma secção de revistas, onde se poderão encontrar várias publicações especializadas.

Há ainda um recanto, mais vocacionado para um público adolescente, onde se podem jogar videojogos. Mas é na agenda cultural que Américo Areal diz querer apostar forte. Para tal, foi criado um auditório, com capacidade para 100 pessoas sentadas. Aqui o objectivo passa por promover todo o tipo de actividades culturais, desde lançamentos de livros, a concertos ou provas de vinhos. Este espaço é «muito importante», na medida em que faz com que as pessoas tenham vontade de se deslocar à livraria, por saberem que alguma coisa estará a acontecer. E que será sempre «interessante e inovador.» Aliás, hoje este projecto caracteriza-se e distingue-se no contexto nacional pela inovação. Não há igual em Portugal. Mas Américo Areal sabe que é apenas uma questão de tempo. Por isso não tenciona descansar à sombra das conquistas feitas. Até porque, como diz, parar é morrer. Ou, pelo menos, morrer mais cedo. E longa vida é o que se deseja a esta livraria. Porque os livros nunca são demais. Mesmo que não os possamos ler todos. Como disse uma vez Almada Negreiros: «Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.

Deve haver certamente outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido.» E não tinha entrado na Byblos, com os seus 150 mil títulos.